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Senão, nem saio de casa

Há alguns anos, durante um treinamento na minha empresa, um colega, acreditando que fazia uma gentileza, me orientou a não mexer muito meu braço direito (o que eu não tenho a mão) durante minhas apresentações. “Porque senão todos veem que você tem uma deficiência.”

São manifestações como esta, cobertas de boas intenções, que dilaceram o meu coração “de deficiente”.

Já falei aqui sobre fingimento e inclusão, mas neste episódio quem fingiu que estava tudo bem fui eu.

Até hoje, passados mais de 10 anos, ao me lembrar deste diálogo ainda me aperta o coração.

Porque, há uma década, eu não sabia que poderia ter dado outra resposta. Poderia ter dito que não queria esconder minha falta. Que na verdade eu queria que me vissem através dela e não que enxergassem apenas ela.

Eu não sabia, como muitos de vocês ainda não sabem, que com todas nossas imperfeições podemos ser inteiros mesmo que nos falte um pé, uma mão,um dos sentidos ou, pior, amor próprio.

Toda pessoa com deficiência tem traumas, dores e amores. Assim como você, a quem não falta nem a unha do dedão esquerdo, mas que também já comeu o pão que o diabo amassou. Então porque eu seria diferente de você?

Na mesma empresa, ontem à tarde, uma doce colega se emocionou ao ver como uso meu braço para digitar. (Sim, uso meu braço direito para digitar) e esse tipo de percepção (aberta e honesta) ainda me encanta: quando o mundo me diz que tenho poucas limitações e, geralmente, impostas por mim mesmo – com pouca relação à minha deficiência.

Claro, temos deficiências e deficiências. Talvez meu discurso não se aplique para casos com maiores limitações.

Pensando bem, se aplica sim, afinal, aquele amigo que tem casa, família, emprego, amigos, cama e roupa lavada, tem “tudo” e mesmo assim está deprimido, não é mesmo?

Ou seja: talvez as autolimitações sejam nossa grande deficiência.

Na época em que meu colega sugeriu esconder quem sou, eu não sabia de muitas coisas. E, talvez, ainda quisesse que fosse viável fingir ser quem não era.

Hoje, o que toca meu coração é ser reconhecido exatamente como sou. É entrar num evento, salão repleto de pessoas, e não fingir ser perfeito. Ao contrário: saber que sou completo. Porque todos somos.

Multicorpos. Ninguém é igual ao outro. Não esconda algo seu que pode ser justamente o que é belo ao olhar de quem importa.

Então, meu caro colega, agradeço o conselho, sei que foi o possível naquele momento, mas não vou aceita-lo. Pelo contrário, vou chegar balançando meu corpo inteiro, alma e coração inclusos, onde quer que vá. Senão, nem saio de casa.

 

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