Bisturi

O bisturi é o de menos

Aquele menino de pouco mais de 17 anos já tomara uma decisão importante: seria cirurgião.
Escolheu medicina no vestibular e começaria sua carreira naquele ano. Talvez cirurgia plástica. Sim, cirurgia plástica definitivamente.
Não era pelo dinheiro. Nunca foi por fama ou fortuna. Era muito mais do que isso. Provaria ao mundo. Ou a si mesmo.
Poderia harmonizar faces, restaurar corpos. Devolver autoestima. Inspiraria. Seria sua própria redenção.
Era um adolescente atavicamente sonhador.
Outra pessoa que cultivava o hábito de sonhar era a terapeuta do nosso futuro cirurgião. Plástico com certeza.
Porém, nossa psicóloga sonhava com os pés no chão. A melhor maneira de sonhar porque realiza. Enfim, a sonhadora pé no chão não pode fazer de conta que esse plano tão bem articulado daria certo, apesar de tudo.
Obrigou-se a acordar o Dr. Cirurgião que harmonizaria faces e restauraria corpos. E autoestimas.
Definitivamente, a falta de uma mão, herança congênita do vestibulando sonhador, comprometia o que já havia traçado para seu futuro.
Não, não se tratava de não acreditar nas capacidades do guri. Muito menos capacitismo. Era muito mais encarar a verdade como tal. Cirurgiões plásticos precisam de mais do que uma mão. E a serviço de que ele havia feito sua escolha.
Recentemente, já adulto, de volta à terapia com a mesma sonhadora pé no chão, voltaram a esse assunto. E a tantos outros conhecidos de ambos.
Riram como velhos cúmplices quando ela se obrigou mais uma vez a falar a verdade: ele havia se transformado num cirurgião plástico mesmo. Sem bisturi. Sem sala de cirurgia. Restaurou corpos e autoestimas. A começar por si.
Seus instrumentos, acessíveis a todos: acolhimento, abraços, muitas doses de autoconhecimento e textos. Muitos textos em primeira pessoa. Vários impublicáveis. A anestesia fez falta diversas vezes, mas os resultados superaram muitas técnicas cirúrgicas.
Nem sempre percorremos os caminhos usuais para chegar nos resultados desejados. Cada um de nós pode ser cirúrgico. O bisturi é o de menos.

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