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Eu e minha orquídea

A masculinidade tóxica arruína a paternidade porque engessa o homem. Limita nossos sentimentos e afetos.

Desde o berço somos criados para não chorar, não nos emocionarmos, não sermos gentis, não termos empatia. Homem é bruto. Ai de quem for contra a tal natureza, porque, afinal, “homem é tudo igual”.

Nessa lógica perversa, somos limados de uma série de acontecimentos transformadores. Porque homem que é homem, você sabe, né, não deve se aprofundar em nada que não seja futebol, mulheres e cerveja.

Somos tão condicionados a ter um comportamento “macho alfa” que até os cuidados pessoais só nos foram permitidos depois da invenção das barbearias bacanas e moderninhas que oferecem whisky e ‘ceva’ para que ninguém repare, que, na verdade, ali está um monte de homem querendo ficar mais bonito. Simples assim. De novo, essa masculinidade não permite acesso à vaidade, “coisa de mulher”.

Não podemos acolher um amigo triste, “coisa de viado”; não choramos, só “caiu um cisco”; devemos ser cruéis com o menino que anda com meninas na escola; e quando percebemos, homens espancam pai e filho que estavam andando abraçados num shopping center, “pareciam gays”.

Eis que, desafiando a lógica árida, nasceu no meu peito uma orquídea, responsável por tanto sentir. Brotou sem explicação, quando vi, estava lá. E ela, tive que esconder por muito tempo. Sempre achei injusto não poder expressar o que sentia, mas, afinal, homem não deveria sentir.

Então amadureci, e descobri uma manifestação em que não calaria a orquídea em meu peito, mesmo indo contra as leis pétreas da natureza masculina. Definitivamente, eu não anularia minha sensibilidade e afetos na paternidade. Seria minha grande redenção. E foi. E tem sido.

A masculinidade tóxica arruína a paternidade porque limita nossos afetos, sentimentos e acaba por apagar nosso melhor legado. E, sabemos, não há oportunidade mais pura e verdadeira para exercer plenamente nossos amores do que a paternidade.

Então, este é o momento em que você, que ainda repete ladainhas como ‘homem não chora’ ou ‘isso é coisa de mulher’, vai receber o álibi que precisava para evoluir. Vai entender, a partir do seu rebento, que a vida é muito maior do que a masculinidade frágil que nos ensinaram.

Não é culpa de ninguém. Repetiram o que escutaram. Mas você não precisa repetir. Pode mudar sua história e ser um pai de verdade. Presente, afetivo. Que conheça o toque da pele do seu filho. Que reconheça o choro dele como algo necessário porque, sim, doeu. Você pode ir às reuniões da escolinha. Pode fazer tranças no cabelo da sua filha e quem sabe até acompanhá-la nas aulas de balé.

Há gerações de homens que não puderam sentir essas dores, muito menos participar da vida de seus filhos. Ainda há muita violência, abusos, machismo, bullying, dor e sofrimento por conta de um papel que nos impuseram. Não precisamos repetir. Este é o mantra.

Deixa tua orquídea brotar no peito. Carrega teus afetos à flor da pele. Ama. E entende que isso não te impede de gostar de ceva, futebol, whisky e mulheres. Ou de homens, se for o caso. E de viajar e de cantar e até de dormir.

Mas principalmente, isso te aproxima do teu filho. E essa permissão para demonstrar tua sensibilidade vai te libertar. Difícil será viver como antes, quando o homem era obrigado a fumar charuto com os parceiros enquanto perdia os primeiros momentos da vida do seu filho, acreditando que ele “é da mãe”.

Somos hamsters condicionados com medo de sair da gaiola. Pavor do desconhecido. Mesmo quando o desconhecido é o afeto, inofensivo como ele só.

A masculinidade tóxica está tão embrenhada na nossa cultura que alguns de vocês podem discordar disso tudo e acreditar que está tudo bem, mas, enquanto isso, filhos de amigos estão sendo humilhados, ridicularizados, mortos. Não esperemos esta dor chegar aos nossos lares. Vamos começar agora, juntos, essa revolução por uma nova paternidade que nasce a partir desta orquídea no peito de cada um de nós.

 

 

Imagem: Freepik

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