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Um dia de cada vez

Sabe, uma vez, época da faculdade, século passado, morei 3 meses na Itália. Voltei e tive uma depressão daquelas de ficar grudado no sofá tamanho o peso da minha tristeza.

Tive convicção de que seria para sempre. Pensei em morrer. Foram dias escuros em que o sol parecia bloqueado da janela da minha alma.

Algumas noites, cheguei a dormir no chão. Ao lado da cama. Não me sentia bem para dormir num colchão macio, tamanha a rigidez do meu coração.

Lembro de passar horas e horas olhando para fora sem enxergar nada. Os pássaros seguiam cantando, as árvores brilhavam seu verde forte, mas nada disso eu percebia. Porque cabia em mim apenas a imensidão do meu vazio.

É estranho, mas esse buraco interno chegava a doer. Não chorava porque secara inclusive minha lágrima. Tempo de escassez de futuro. Não enxergava perspectiva de nada.

Vivia um dia de cada vez com a certeza de que o próximo seria pior. Nosso umbigo e nossa dor viram o centro do mundo.
O sol seguia brilhando lá fora e aqui dentro era como uma área hermética em que não proliferava nem luz, nem ar.

Respirava pouco por medo de sentir demais.

Eram tempos de pouco coração porque a tristeza era tamanha que apagava os outros sentidos.

Lembro bem da TV acesa. Minha confidente. E era triste.

Final do dia, tentava recuperar um pouco do meu talento e fingir um bem estar. Recebia a visita da Lu e não queria que ela entendesse a profundidade do meu vazio.

Ela, talentosa também, encenava ao acreditar quando eu dizia estar bem. De coração dilacerado, ela fingia estar feliz para me fazer bem.

O tempo curou o buraco profundo. Deixou algumas cicatrizes que guardo até hoje como doce lembrança de que tempos melhores sempre virão.

Cada um deve encontrar sua forma de lidar com essa dor, mas não te emudece, não te isola. Luta!

Às vezes, ainda me assusto quando passo alguns dias sem conseguir perceber o brilho do sol ou o sabor de uma boa brisa, mas, hoje, sei que é porque a vida é dessas: tem altos e baixos. E nesta gangorra, estamos nós, vivendo um dia de cada vez. Só que agora tenho a certeza de que (sempre) o dia de amanhã será ainda melhor.

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