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Um coração sangra porque deixamos

Era 2011 quando retomei o controle da minha vida no exato segundo em que percebi que voltar para casa e ficar com meu filho era a pior parte do meu dia.

Foi naquele dia, andando a 120 por hora numa estrada, vindo para casa após 13 horas de trabalho, que percebi: havia me perdido. Tive o pior dia de todos no trabalho. Fui humilhado. Desqualificado. Fui esmagado pelo meu próprio sentimento. Um longo período de assédio moral havia invertido minha lógica. E meu afeto.

Daquele instante, em que a ficha foi desmoronando sobre meu carro e esmagando meu coração, até o ponto de chegar em casa e tocar no Gianluca, não lembro de nada. Absolutamente guiado por algo maior do que eu. Não recordo de ter trocado de pista. De ter parado em sinaleira. De ter vivido. Só desbravei aqueles quilômetros porque precisava gritar para o mundo que eu estava de volta. O pai do Gianluca estava vivo. Mais que nunca. Meu filho, eu te quero comigo. Para sempre. Tentaram me esvaziar. Acabaram eles, secos e amargos. Cheguei em casa leve, após um percurso apagado da minha mente.

Decidir largar o cargo de destaque, um salário melhor, e começar a viver minha vida de uma vez por todas.

Esperei 30 anos para ser pai. Tive medos. Chorei por amor. Cresci. Aprendi. Fui acolhido por um amor gigante, maior que o oceano. E você vai me dizer que está certo não querer ver o meu filho?

Teu pai chegou. É só o que eu pensava em dizer. Voltou após meses de ausência. A pior delas. Estava ao teu lado com o coração sangrando. Não consegui ser teu pai como devia. Sequer fui pessoa como devia. Quase acreditei nos outros.

Ninguém, nada. Nada nem ninguém me afastarão de ti. De vocês.

Um coração sangra porque deixamos. Deixei. Errei. Perdi meu foco. Mas voltei. Papai voltou. Pode descer as escadas correndo. Hoje vou te abraçar inteiro de novo. Papai tá aqui!

Ele desceu, bermuda azul, camiseta verde amassada. Me viu. Entendeu no primeiro degrau que meu coração estava de volta. Me enxergou porque eu enxerguei ele de novo. Papai voltou!

Era noite já, mas nunca vi minha casa tão iluminada. O amor brilha a gente. Um filho nunca perde a esperança. Os adultos é que se perdem na vida. Alguns se acham. Me achei. Numa curva. Quase fora da pista, quase acidente fatal. Quase me perdi. Dele. De mim.

Estava decretado, tipo lei que pega: nunca mais me perderia. Nunca mais acreditaria no que me diminuísse. Dói às vezes, mas agora eu decido quem vou levar comigo. Dentro do meu coração, só luz.

O perdão de um filho tem cheiro de chuva na grama seca. É leve e doce. Como suspiro. Tira a tonelada que esmaga teu coração. Respiro fundo e sinto meu amor de volta. Brota pelos poros. Tive medo de perder a capacidade de amar. De ter secado. Me afastei do câncer a tempo. Não me contagiou.

O tapete da sala, carrinhos. Eu e ele. E meu coração cicatrizado voltando a enxergar o essencial. Bastou para tudo fazer sentido de novo. Como analgésico milagroso, tirou de mim meses de um sabor amargo.

Papai está de volta!

 

 

 

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