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Por que o homem pode “optar” pela paternidade?

Sempre é tempo de falar sobre paternidade. Ei, não fuja. Esse texto é para você também.

Dias desses, curti exatas duas horas de conversa com uma das mulheres mais inspiradoras que conheço. Foi um privilégio e um soco no estômago.

Falamos de tudo, e falamos de paternidade. E da falta dela.

Minha amiga esteve com seu filho por 71 dias consecutivos em uma UTI. Setenta e um dias de dor, de isolamento.

Sabe quem ela não viu nesses 71 dias de UTI? Os pais das outras crianças hospitalizadas. Eles apareciam, etéreos, aos finais de semana, chimarrão em punho, entre a sala de TV e a quarto do filho internado na unidade de terapia intensiva.

Não vou entrar, nem você, na argumentação rasa de que “alguém tinha que seguir trabalhando”.

A minha indignação como homem e como pai é a de viver em um mundo onde o homem pode escolher, pode querer ou não, pode optar pela paternidade, enquanto a mulher é uma vagabunda se vai à uma festa deixando um filho pequeno em casa aos cuidados de outra pessoa. Sim, eu e você vivemos nesta sociedade.

Se vale para uma situação extrema (a UTI), vale para o pai que não divide tarefas em casa, nunca foi numa reunião na escola do filho e nem sabe ao certo o ano escolar da criança.

Se ainda é tempo de falar sobre paternidade, é porque ela ainda representa uma peça de ficção em tantos lares brasileiros.

Relutei um bom tempo para perceber que, se existem tantos blogs que valorizam a paternidade e suas maravilhas, é justamente porque isso está longe do senso comum.

Somos úteis, infelizmente. Ou deveríamos ser. Quando analisamos os números do meu e de tantos blogs e sites especializados em paternidade, descobrimos que de 70% a 80% (ou até 90 em alguns casos) dos nossos leitores são mulheres. Escrevemos para mulheres sobre ser pai. Escrevemos para muitas mulheres que nos dizem que não têm maridos atuantes em casa. E nos idealizam.

Erramos muito, erramos diariamente nós, os “pais blogueiros”, mas estamos presentes e tentando acertar o tempo inteiro. Estamos comprometidos com nossos filhos e em sermos seres humanos melhores. Sabemos que não temos esse direito à escolha que alguns homens se auto-concedem com o apoio absurdo da sociedade. Nem queremos.

Estou criando dois homens, confio no meu exemplo, mas ainda é necessário reforçar, até para eles, que nossa sociedade é limitada, machista e preconceituosa. Mas que acima disso tudo, está o nosso amor.

Desse afeto espero que brote uma geração de homens melhores, que compreendam verdadeiramente que a paternidade (e a maternidade) são uma opção sim, antes da concepção. Depois são uma imensa responsabilidade, a de criar homens e mulheres íntegros.

Vinte e cinco por cento dos meus leitores são homens. A grande maioria, pais presentes. Então este texto é justamente para os outros 75% dos homens, que, sendo pais, não estão interessados neste conteúdo porque optam pela presença seletiva. Já disse e repito: vocês irão se arrepender. E poderá ser muito tarde.

 

 

*  Sobre essa amiga inspiradora vocês ainda escutarão falar muito. Em breve, a Lau Patrón vai lançar o livro “71 leões” onde fala sobre esse período de 71 dias em que esteve vivendo com o filho, o lindo João Vicente, em uma UTI.

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