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O pai da Dora

Ninguém pede para nascer. Mas pedimos para sermos amados. De diversas formas, algumas nada discretas.

Esses dias, diante de uma plateia de quase 300 pessoas, uma mãe, ao lado da filha adolescente, me perguntou por que no escritório de contabilidade onde trabalha tantos pais ligam para saber quando, finalmente, vão parar de pagar a pensão a seus filhos.

Um auditório inteiro calou. Eu, mais ainda. Ouvia-se minha falta de respiração a procura de uma resposta. Mas algumas perguntas não têm resposta. Algumas perguntas não deveriam nem existir. Mas esta existiu. E faz sentido para tantas famílias.

Outro dia, o relato de uma amiga me dilacerou: chorando, prantos, me perguntou o que faz o pai da sua filha viajar durante seis horas para passar apenas 1 hora e meia com ela e logo “devolver” para a mãe com o pretexto de que o shopping fechou. Por que nunca ligava para saber da menina? Ou ainda por que era ela, a mãe, quem tinha de insistir para o homem ver a própria filha? Eram muitas as perguntas, são muitas as dores. Para ambas.

Penso na menina, a quem chamarei de Dora. Futura cientista, trará muitas respostas, afinal, espertíssima, faz muitas perguntas. Menos uma. Aquela cuja resposta foge como nós fugiríamos de um leão faminto. Dora nunca perguntou ao pai bissexto porque não faz questão de vê-la. Dora, no auge dos seus 7 aninhos nunca perguntou, finalmente: “pai, por que tu não gosta de mim?”.

Dora, minha cientista desbravadora, não é de ti que ele não gosta. É dele mesmo. Ele tem vergonha cotidianamente de ter sido o homem que fugiu. E agora, se esconde atrás dessa culpa como fosse vítima. Errado, papai. Tu é predador. Gera dor diária na Dora. Na tua filha.

Dora sabe de tudo, não se enganem. E nestes noventa minutos de passeio com seu pai tudo o que ela faz é tentar ser amada porque todos nós queremos ser amados por quem nos fez. Adora seu pai, sua mãe, mas não vai conseguir amar a si mesma enquanto não encarar de frente que o shopping fecha, mas a paternidade não.

Homens como o pai da Dora são os mesmos que ligam para seus contadores atrás do fim da pensão, mas que nem ao menos sabem o número do telefone de seus filhos e filhas que passam dias a esperar uma ligação. Nem que seja por engano.

Esse tipo de homem está criando uma geração que luta por migalhas de afeto. Qualquer encontro de olhos com aquele pai semi-estranho é o suficiente para crianças se sentirem amadas. Aprendem desde cedo que não merecem muito mais do que aquilo. Projetam para si a culpa covarde que é deles.

Quero o fim das migalhas. Nenhuma pessoa brota inteira se alimentando de escassez.

Sim, algumas perguntas deveriam ter resposta, minha amiga.

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