Sobre ser leve

Sete quilos foi o que incorporei em 2019. Poderia falar sobre atividade física, alimentação e o escambau.

Prefiro falar sobre a tonelada que perdi.

Na virada do ano fiz a tradicional lista de resoluções. Se as cumpri ou não, tenho nem ideia porque as esqueci.

Gosto de pensar que a primeira da lista era: não sofrer por antecipação. Coisa que faço desde a barriga da minha mãe de onde sai prematuro.

Não se engane. O vício em antecipar sofrimentos não acaba assim do dia para a noite. Se é que acaba. Mas neste 2019 consegui atacar sua origem. Fui até a raiz da ansiedade e não a cortei, mas deixei meu medo paralisante de lado e a encarei, muito melhor. A raiz dos nossos vícios se chama “gatilho”, bastante apropriado porque se o apertarmos realmente levamos um tiro. Da vida.

Fui até a raiz e conversei com ela. Disse que não a cortaria, afinal era parte de mim. Que entendesse de uma vez por todas: não a alimentaria mais com recaídas constantes. A respeitaria, poderíamos até tomar um chopp juntos, mas nossa intimidade seria substituída por meu novo flerte: a paz de espírito das pequenas coisas.

Foi assim, pazes feitas sem ressentimentos, que seguimos em frente. Quando necessário, andaríamos de mãos dadas, respeitosamente. Mas o domínio do gatilho é meu.

E assim tem sido. Reconhecer aquele exato momento em que poderíamos repetir a dor, angústia, arrependimento, o “porque não aprendo”. Ou frear. E tomar o novo caminho.

Malandra, a ansiedade conta com nossa insistência no erro. Boba, não percebe que quem sente a leveza não abre mão.

Esta foi minha tonelada perdida: passei por um milhar de situações que me derrubariam. Problemas no trabalho, boletos a mais, relações desnecessárias. Em todos estes momentos, uma decisão: tomar o caminho da leveza. Um breve aceno à raiz da ansiedade, um inclinar de cabeça cordial e um seguir em frente.

Finalmente, se você não perdeu nem um quilo desse peso, pare agora. E comece de novo. Não caia na armadilha da sua raiz. Não aperte contra si o gatilho que te bloqueia o ar.

Que 2020 seja o ano em que você perca. Vai abrir mão de um fardo paralisante que não é seu para sua alma voltar a flutuar com a leveza que a vida pede.

 

Texto: Beto Bigatti
Foto: Giselle Sauer

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